A ficha técnica é o documento que lista cada ingrediente de um prato com quantidade exata, custo unitário e custo total — e é o único jeito de saber quanto custa cada item do seu cardápio de verdade. Sem ficha técnica, qualquer cálculo de CMV vira estimativa, e qualquer preço de venda vira chute. Restaurantes sem ficha técnica operam com CMV em média 4 a 7 pontos percentuais acima do ideal.
Este guia mostra o que uma ficha técnica precisa ter, como montar em 45 minutos, o conceito de fator de correção e o erro que quase todo restaurante comete (ignorar a diferença entre quantidade bruta e líquida). Para o contexto completo do CMV, veja o pillar CMV em restaurante: guia completo.
Sumário
Por que ficha técnica é a base de tudo
Sem ficha técnica você não sabe quatro coisas críticas:
- Quanto custa cada prato de verdade — qualquer estimativa é chute que varia 10% a 30% do real
- Qual prato tem margem boa — você não consegue identificar o que puxa o CMV para cima ou o que é realmente lucrativo
- Quanto deveria cobrar — preço de venda sem custo real é aposta, não precificação
- Onde está vazando dinheiro — quando o custo de um insumo sobe 15%, sem ficha técnica você só descobre no CMV do mês seguinte
O pillar do CMV mostra que restaurantes sem ficha técnica têm CMV médio 4 a 7 pontos percentuais acima do benchmark do segmento. Em uma operação de R$ 100.000/mês, 5 pontos percentuais representam R$ 5.000 perdidos por mês — o equivalente a um salário operacional inteiro.
Ficha técnica não é formalidade — é ferramenta de gestão
O erro mais comum é tratar ficha técnica como documento burocrático que fica em uma gaveta. Ficha técnica de verdade tem três usos diários:
- Padroniza porção na produção (o chef ajuda mas o cozinheiro B consulta)
- Alimenta o cálculo automático de CMV a cada venda
- Serve como base de precificação revisada trimestralmente
O que uma ficha técnica precisa ter
Campos obrigatórios (todo restaurante deveria ter):
- Nome do prato e código interno (se usar PDV)
- Rendimento — quantas porções a receita produz
- Tempo de preparo em minutos
- Ingredientes com três colunas: quantidade bruta, quantidade líquida, custo unitário atualizado
- Fator de correção para insumos com perda (alface, carne, fruta)
- Custo total da receita
- Custo por porção (custo total ÷ rendimento)
Campos avançados (quem já está em nível profissional):
- Foto do prato finalizado (padroniza apresentação)
- Modo de preparo resumido em 5 a 8 etapas
- Temperatura de armazenamento de cada insumo
- Shelf life de ingredientes preparados (ex: vinagrete aguenta 3 dias)
- Alergênicos destacados (obrigatório pela Anvisa em alguns casos)
- Peso final da porção em gramas (útil para controle de porcionamento)
Exemplo — Ficha técnica de hambúrguer clássico
Prato: Hambúrguer Clássico | Código: HAM-001 | Rendimento: 1 porção | Tempo: 8 min
| Ingrediente | Qtd Bruta | Qtd Líquida | Custo Unitário | Custo Total |
|---|---|---|---|---|
| Carne 180g (patinho+peito) | 215 g | 180 g | R$ 42,00/kg | R$ 9,03 |
| Pão brioche | 1 un | 1 un | R$ 2,50/un | R$ 2,50 |
| Queijo cheddar fatiado | 30 g | 30 g | R$ 48,00/kg | R$ 1,44 |
| Alface americana | 30 g | 20 g | R$ 12,00/kg | R$ 0,24 |
| Tomate | 50 g | 40 g | R$ 8,00/kg | R$ 0,32 |
| Molho especial | 20 g | 20 g | R$ 22,00/kg | R$ 0,44 |
| Embalagem (só delivery) | 1 un | 1 un | R$ 1,20/un | R$ 1,20 |
| Custo total (salão) | R$ 13,97 | |||
| Custo total (delivery) | R$ 15,17 |
Preço de venda salão: R$ 42,90 → CMV individual: 32,6% Preço de venda iFood: R$ 49,90 → CMV individual (com taxa 25% iFood) = (15,17 ÷ 37,42) × 100 = 40,5% ⚠️
Esse é o tipo de insight que só aparece com ficha técnica completa: o mesmo prato rende margem saudável no salão e fica na zona de alerta no iFood. Sem ficha técnica, você não sabe que precisa subir o preço no marketplace.
Fator de correção — o detalhe que muda tudo
Fator de correção (FC) é o multiplicador que converte quantidade líquida em bruta. Alface entra na cozinha pesando 1 kg (bruto), mas depois de descascar as folhas externas, cortar e higienizar, restam 650 g úteis (líquido). O FC é 1 ÷ 0,65 = 1,54.
Ignorar fator de correção é o erro mais comum em ficha técnica mal feita. Você acha que um prato custa R$ 12 mas custa R$ 14,50 — 20% mais.
Fatores de correção de referência
| Insumo | FC médio | Observação |
|---|---|---|
| Alface americana | 1,4 a 1,6 | Depende da qualidade do fornecedor |
| Tomate | 1,15 a 1,25 | Perde em fatiamento e sementes |
| Cebola | 1,10 a 1,15 | Perda mínima |
| Carne bovina (alcatra limpa) | 1,10 a 1,20 | Depende do corte |
| Carne bovina com osso | 1,40 a 1,60 | Osso é desperdício |
| Frango inteiro | 1,70 a 2,00 | Osso + pele + vísceras |
| Peixe (filé de pescada) | 1,80 a 2,20 | Perda alta em limpeza |
| Batata | 1,15 a 1,20 | Descascamento |
| Queijo mozarela em peça | 1,03 a 1,08 | Perda mínima |
Faça sua própria medição. Compre, pese, limpe, pese de novo. Calcule. O FC do seu fornecedor pode ser diferente — insumo de melhor qualidade tem FC menor (menos desperdício), e isso muda a conta de quem vale a pena comprar.
Passo a passo — Montando sua primeira ficha técnica
Para fazer em 45 minutos o seu primeiro prato (depois do 5º, cada um leva 10-15 minutos):
Passo 1 — Escolha o prato certo primeiro (5 min)
Não comece pelo prato raramente vendido. Comece pelo top 5 de vendas. Isso porque 20% dos pratos respondem por 80% do faturamento — estruturar fichas dos top começa entregando valor imediato.
Passo 2 — Prepare como sempre prepara e pese tudo (20 min)
Entre na cozinha com balança digital e caderno. Prepare o prato exatamente como prepara todo dia. Pese cada ingrediente na entrada (quantidade bruta) e pese novamente após limpeza/corte (quantidade líquida). Anote.
Passo 3 — Calcule o fator de correção (5 min)
FC = Quantidade Bruta ÷ Quantidade Líquida. Anote na ficha — vai usar esse fator para próximos cálculos.
Passo 4 — Atualize o custo unitário (5 min)
Pegue a última nota fiscal do fornecedor e divida o valor pelo peso comprado. Exemplo: compra de 5 kg de alface por R$ 18 = R$ 3,60/kg. Use esse valor, não o preço que você “acha que está”.
Passo 5 — Calcule o custo total (5 min)
Para cada linha: Quantidade Líquida × Custo Unitário = Custo da linha. Some todas as linhas = Custo Total do prato. Divida pelo rendimento = Custo por Porção.
Passo 6 — Valide com duas tentativas (5 min)
Refaça o prato usando exclusivamente as quantidades da ficha. Se o produto final é igual ao padrão, a ficha está correta. Se diferente (muito pequeno, muito seco, desequilibrado), ajuste quantidade e refaça até bater. Melhor gastar 30 minutos a mais aqui que operar 6 meses com ficha errada.
Depois do 5º prato estruturado você ganha velocidade. O cardápio inteiro leva 2 a 4 semanas dedicando 2 horas por dia.
Planilha ou sistema — qual escolher
Planilha (Google Sheets ou Excel) serve quando:
- 1 unidade
- Até 30 pratos no cardápio
- Você (dono) mantém pessoalmente
- Fornecedores relativamente estáveis (pouca troca de preço)
Sistema vira obrigatório quando:
- Cardápio com 50+ pratos
- Multi-unidade ou multi-marca (dark kitchen)
- Equipe operacional lançando (não você)
- Insumos voláteis (carne, peixe, queijo) que mudam preço a cada 15 dias
- Integração com PDV e/ou iFood
A razão é mecânica: atualizar o preço do queijo em planilha implica abrir cada ficha que usa queijo e editar. Com 80 pratos e 200 insumos, isso é 2 a 4 horas de trabalho toda vez que um fornecedor muda o preço. Em sistema, você muda o preço em um lugar e todas as fichas que usam o insumo atualizam automaticamente.
O BoraChef faz exatamente essa ponte: ficha técnica + atualização automática de custo + baixa de estoque a cada venda = CMV preciso em tempo real.
Rotina de manutenção de ficha técnica
Ficha técnica desatualizada é pior que não ter — porque dá falsa segurança. Rotina mínima:
- Semanal: conferir fichas dos 5 pratos mais vendidos. Mudou o fornecedor? O insumo chegou em qualidade diferente? Atualizar.
- Mensal: atualizar custo unitário de insumos voláteis (carne, queijo, pescado, bebidas importadas). 15 minutos de trabalho.
- Trimestral: revisão geral de custos. Pegar todas as fichas, confrontar com última compra de cada insumo, atualizar.
- Semestral: revisão de receita. Porção ainda está correta? Tem prato que poderia trocar ingrediente caro por equivalente mais barato sem perder qualidade?
E todo trimestre, revisar precificação do cardápio com base nas fichas atualizadas. Cardápio que não ajusta preço em 6 meses virou museu — os custos subiram e a margem foi embora.
Como o BoraChef ajuda
No BoraChef a ficha técnica é o ponto de partida, não uma entrega opcional. Você cadastra os ingredientes (com FC se souber), vincula cada ficha ao produto do cardápio e o sistema:
- Calcula custo por prato automaticamente
- Sugere preço de venda com margem-alvo configurável
- Baixa estoque do insumo a cada venda
- Atualiza custo de todas as fichas que usam um insumo quando o preço muda
- Sinaliza quando um prato saiu da faixa de CMV individual
A diferença prática: uma mudança no preço do queijo que levaria 2 horas no Excel leva 10 segundos no sistema.
Perguntas frequentes
O que é ficha técnica de um prato?
Ficha técnica é o documento estruturado que lista todos os ingredientes de um prato, com quantidade exata, custo unitário e custo total. Serve como base para calcular CMV individual, padronizar porções entre cozinheiros e revisar precificação sempre que insumo varia.
Quais informações uma ficha técnica precisa ter?
Nome do prato, rendimento (quantas porções produz), lista de ingredientes com quantidade bruta e líquida, custo unitário atualizado de cada insumo, custo total do prato, custo por porção, tempo de preparo e modo de preparo resumido. Itens avançados incluem fator de correção e foto.
Qual a diferença entre quantidade bruta e líquida?
Bruta é o que entra na cozinha (1 kg de alface). Líquida é o que sobra depois de limpar/descascar/cortar (650 g de alface efetivamente utilizada). A diferença é o fator de correção. Ignorar isso subestima o custo do prato em 10% a 35% dependendo do insumo.
Preciso de ficha técnica para todos os pratos do cardápio?
No mínimo para os 20% de pratos que representam 80% das vendas (princípio de Pareto). Começar por esses entrega o maior impacto com menor esforço. Depois de estruturado, ficha técnica para o cardápio inteiro leva 2 a 4 semanas de dedicação.
Com que frequência devo atualizar ficha técnica?
Revisão de custo unitário: mensal para insumos voláteis (carne, queijo, tomate) e trimestral para estáveis. Revisão de receita completa: quando trocar fornecedor, ajustar porção ou receber feedback consistente de cliente sobre sabor. Ficha técnica desatualizada é pior que não ter.
Posso fazer ficha técnica no Excel ou preciso de software?
Excel funciona até 30 pratos e 1 unidade. A partir daí o custo manual de manter cada célula correta quando um insumo muda supera a economia. Sistema integrado atualiza o custo de todos os pratos que usam um insumo com uma edição única.
O que é fator de correção em ficha técnica?
Fator de correção é o multiplicador que converte quantidade líquida em bruta. Alface tem FC em torno de 1,5 (para ter 650 g líquidos você compra 1 kg bruto). Carne bovina tem FC em torno de 1,1 a 1,25 dependendo do corte. Usar FC errado erra o custo do prato em 10% a 30%.
Calculadora de CMV
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